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16 Dezembro 2011
A vinda de Guernica à 2ª Bienal
Investigação apresenta cartas, telegramas e depoimentos sobre a vinda da mais célebre obra de Picasso ao Brasil

Obra do mais célebre pintor na mais célebre das Bienais de São Paulo, a Guernica, de Pablo Picasso, esteve no Brasil durante a 2ª Bienal (1953). Todo o trâmite envolveu uma série de cartas e telegramas, em vários idiomas, entre as diversas pessoas e instituições que protagonizaram tamanha façanha: a de trazer a obra para o Brasil, para uma Bienal que acabava de nascer. Guernica estava sob a guarda do Museu de Arte Moderna de Nova York (MoMA) desde a Segunda Guerra Mundial, a pedido do próprio Picasso, que não autorizou sua volta à Espanha até que este fosse um país democrático. A obra só retornou em 1981.

Em carta de Ciccillo Matarazzo a Picasso, datada de 26 de dezembro de 1952, entende-se que Yolanda Penteado já havia estado com o artista durante uma viagem a Paris e proposto sua participação na 2ª Bienal. Ele aproveitava, então, a ida da artista Maria Martins, para reforçar o convite:


Carta de Ciccillo Matarazzo a Picasso em 26 de dezembro de 1952

Um mês depois, Maria Martins manda notícias de Paris a Ciccillo, falando que Picasso concordava com a exposição e que indicava o historiador e colecionador de arte Daniel-Henry Kahnweiler para organizar a exposição:


Carta de Maria Martins a Ciccillo Matarazzo em 28 de janeiro de 1953

Junto a Kahnweiler e Maurice Jardot, compondo a "equipe" de Paris, estavam também o chefe da delegação brasileira da Unesco e comissário geral da Comissão do IV Centenário de São Paulo na Europa, o professor Paulo de Berrêedo Carneiro, e sua assistente Maria Oliva Fraga. Os dois faziam a ponte entre São Paulo e Paris, e foi Carneiro quem informou a Ciccillo sobre a ideia de Jardot de incluir Guernica na sala especial de Picasso:


Carta de Paulo de Beêrredo Carneiro a Ciccillo Matarazzo em (data aproximada) março de 1953

Da Bienal, a articulação com todos os envolvidos era feita por Arturo Profili, o secretário poliglota de Ciccillo, que enfatizou a importância de tal esforço em resposta ao professor Carneiro:


Carta de Arturo Profili a Paulo Berrêdo de Carneiro em 4 de março de 1953

E quase um mês depois, no dia 23 de abril de 1953, chega por telegrama de Carneiro a boa nova:


Telegrama de Paulo Berrêdo de Carneiro à Bienal em 23 de abril de 1953

Em maio de 1953, Profili entra em contato com René d'Harnoncourt, o diretor do MoMA na época, informando a autorização de Picasso para o empréstimo de Guernica, iniciando assim os trâmites para a viagem:


Carta de Arturo Profili a René d'Harnoncourt em 21 de maio de 1953

Uma cópia da carta enviada a Picasso pelo diretor de coleção do MoMA, Alfred Barr, mostra sua surpresa ao saber que o mestre havia autorizado o envio da obra a São Paulo. Ressalta que isso acarretaria uma mudança na recém montada exposição permanente do Museu, e alerta para os cuidados necessários com a obra, que já tinha sofrido bastante com montagens e desmontagens.


Carta de Alfred Barr a Picasso em 15 de junho de 1953

E em resposta a Profili, Barr é enfático em relação a todo o procedimento para retirada da obra, ponto focal da exposição permanente do MoMA na época, perguntando se a Bienal arcaria com os custos da remontagem. Claro, todas as despesas foram negociadas e arcadas pela Bienal.


Carta de Alfred Barr a Arturo Profili em 15 de junho de 1953
Vi moços bem-nascidos fazerem chacotas diante da Guernica, de Picasso, e gente simples do interior, trazida de ônibus, a convite do governo, deslumbrar-se diante da tela - Wolfgang Pfeiffer

A partir de então, uma enorme transação – de seguros, transportes, valores – aconteceu entre São Paulo, Nova York, Milão e Paris.  Guernica partiu de Nova York de avião até Milão e de lá veio de navio do porto de Genova até o porto de Santos, para compor, em grande estilo, a sala especial de Picasso.

No livro As Bienais de São Paulo/1951 a 1987, Leonor Amarante conta episódios divertidos dessa 2ª Bienal, que ficou conhecida como a "Bienal da Guernica". Um deles é sobre os montadores da Bienal que retiraram Guernica de um caminhão atolado na lama do Parque Ibirapuera, na época em construção.

Amarante também relata a impressão de Wolfgang Pfeiffer – crítico alemão fixado no Brasil desde 1948, atuando como diretor técnico do MAM – sobre a reação do público diante de tanta novidade exposta na 2ª Bienal: "Houve quem debochasse de algumas obras. Mas normalmente esse deboche partia de pessoas da burguesia, aquelas que se consideravam entendidas em arte e que, pretensiosamente, queriam julgar a produção contemporânea movidas pelo mesmo entusiasmo com que compravam arte acadêmica. Vi moços bem-nascidos fazerem chacotas diante da Guernica, de Picasso, e gente simples do interior, trazida de ônibus, a convite do governo, deslumbrar-se diante da tela."

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