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Home Entrevistas Brasilidades: entrevista com Moisés Patrício

16 abr 2026

Brasilidades: entrevista com Moisés Patrício

Detalhe de obra da série Brasilidades, de Moisés Patrício, na 36ª Bienal de São Paulo - © Natt Fejfar / Fundação Bienal de São Paulo

Esculturas híbridas de concreto e barro compõem a obra Brasilidades, apresentada por Moisés Patrício na 36ª Bienal de São Paulo. Nela, cubos de cimento que remetem ao construtivismo brutalista engolem peças cerâmicas do candomblé (alguidares, quartinhas e vasos de barro). A obra agora integra a mostra itinerante da Bienal no Rio de Janeiro. Leia abaixo o depoimento do artista.

homem de vestes brancas em meio a esculturas coloridas
Moisés Patrício durante a montagem da 36ª Bienal de São Paulo © Fe Avila / Fundação Bienal de São Paulo

 

Exu

Exu, dentro da tradição yorùbá e das culturas afro-brasileiras, é o senhor da comunicação, do movimento, da negociação entre forças. Ele não organiza o mundo a partir da pureza ou da separação, mas justamente a partir do encontro, do atrito, da troca. Então, quando eu digo que atuo a partir de um lugar exuístico, estou afirmando que meu trabalho se constrói nesse campo de tensão. É a encruzilhada como método. Não se trata apenas de colocar opostos lado a lado, mas de sustentar o conflito sem tentar resolvê-lo rapidamente. Arte e espiritualidade, instituição e terreiro, corpo individual e corpo coletivo, memória e presente. Esses campos não aparecem no meu trabalho como categorias estáveis, mas como forças em negociação constante.

Exu é quem abre caminho, mas também quem cobra coerência. Não existe atravessamento sem consequência. Então esse lugar exige responsabilidade com aquilo que se movimenta quando eu aciono uma imagem, um gesto ou uma fala. Na prática, isso significa que minha obra não busca conforto. Ela busca trânsito. Ela cria situações onde diferentes mundos se encostam, se estranham, se reconhecem ou se recusam. E é nesse movimento que algo novo pode emergir. A encruzilhada, para mim, não é um símbolo. É um território de produção de sentido.

Quando eu me coloco nesse lugar, eu aceito não ter controle total sobre o que se abre. Mas, ao mesmo tempo, assumo a responsabilidade de sustentar esse campo com ética, escuta e presença. É daí que meu trabalho acontece.

 

objetos de barro em placas de cimento
Vista da série Brasilidades, de Moisés Patrício na 36ª Bienal de São Paulo © Levi Fanan / Fundação Bienal de São Paulo

 

Tecnologias ancestrais

Em Brasilidades, os alguidares e o barro aparecem, sim, como presenças carregadas de sentido, mas não como símbolos ilustrativos de uma espiritualidade. Eles operam como tecnologias ancestrais. O alguidar, dentro das tradições afrodiaspóricas, é um dispositivo de preparo, de oferta, de transformação. Ele organiza relações entre corpo, alimento, território e energia. Quando esse objeto é deslocado para o campo da arte, ele não perde essa dimensão, mas também não se reduz a ela. Ele tensiona o espaço expositivo, porque carrega uma função que não é originalmente estética. O barro, por sua vez, é matéria de origem. Ele está ligado à ideia de corpo, de formação, de retorno. É uma matéria que guarda a possibilidade de ser moldada, mas também de se desfazer.

Objetos de barro em placas de concreto
Vista da série Brasilidades, de Moisés Patrício, durante a 36ª Bienal de São Paulo © Natt Fejfar / Fundação Bienal de São Paulo

 

Barro e concreto

O barro carrega a memória, a maleabilidade, o gesto ancestral e a continuidade de saberes que atravessam o tempo. O concreto, por outro lado, é a materialização de um projeto moderno, urbano, muitas vezes associado à imposição, à contenção e ao apagamento. O que me interessa é justamente o ponto de fricção entre esses dois estados. Não se trata de oposição simples, mas de convivência forçada. O barro não desaparece no concreto, ele resiste dentro dele. Essa relação ativa discussões sobre colonialidade, permanência e transformação, onde o que parece rígido é, na verdade, atravessado por camadas de história e conflito.

Quando penso o barro em relação ao concreto, estou lidando com uma sobreposição de tempos e de epistemologias. O barro remete a sistemas de conhecimento que operam pela continuidade com a terra e com o coletivo. O concreto aponta para um projeto de construção que muitas vezes se estabelece pela ruptura, pela imposição e pela tentativa de permanência.

 

objetos de barro em placas de concreto
Vista da série Brasilidades, de Moisés Patrício, durante a 36ª Bienal de São Paulo © Natt Fejfar / Fundação Bienal de São Paulo

 

Brasilidades

O título Brasilidades surge da necessidade de lidar com a ideia de Brasil não como identidade fixa, mas como campo de disputa. Falo de uma brasilidade que não é homogênea nem conciliadora, mas construída a partir de sobreposições, tensões e negociações constantes. O título assume o plural como estratégia, reconhecendo múltiplas camadas culturais, sociais e espirituais que coexistem, muitas vezes em conflito, dentro de um mesmo território.

 

objetos de cerâmica em placas de concreto
vista da série Brasilidades, de Moisés Patrício, na itinerância da 36ª Bienal de São Paulo no Museu de Arte do Rio (MAR), no Rio de Janeiro, RJ © Fabio Souza / Fundação Bienal de São Paulo

 

Itinerância: Rio de Janeiro

A reconstrução da obra em um espaço expositivo altera significativamente sua leitura. Quando apresentada fora, no espaço urbano, ela dialoga diretamente com o território, com o uso cotidiano, com o desgaste e com a presença não mediada do público. No espaço expositivo, há um deslocamento. A obra passa a ser enquadrada por um regime de atenção mais controlado, mais contemplativo. Isso não enfraquece a obra, mas revela outras camadas. O que antes era atravessamento direto passa a ser também reflexão. A institucionalização da obra evidencia como certos discursos são absorvidos, organizados e, em alguma medida, neutralizados. Esse deslocamento me interessa como parte do trabalho.

Apresentar essa obra no Rio de Janeiro adiciona uma camada específica de leitura. O Rio carrega uma história muito particular de construção simbólica do Brasil, tanto no imaginário nacional quanto internacional. É um território onde as tensões entre natureza, urbanização, desigualdade e espetáculo estão muito evidentes. Inserir Brasilidades nesse contexto faz com que a obra dialogue com outras narrativas de construção do país, especialmente no que diz respeito à visibilidade e invisibilidade de determinadas histórias. O trabalho ganha novas ressonâncias ao ser atravessado por esse território, sem perder sua base, mas ampliando suas possibilidades de leitura.

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