A estratégia da matriz oblíqua no condomínio de Bernardes aproveita o relevo natural do terreno como um recurso ativo na criação dos espaços, transformando a inclinação da encosta em uma oportunidade projetual. A implantação oblíqua em uma encosta transforma o desnível em um componente fundamental do projeto, permitindo resolver questões relacionadas à contiguidade imposta pela malha regular, especialmente no que diz respeito à relação entre os espaços públicos e privados. O deslocamento vertical ao longo dos desníveis oferece uma variação de alturas e perspectivas, permitindo que cada morador experimente diferentes níveis de privacidade e vista, enquanto otimiza o uso dos espaços abertos. A escada lateral não é apenas um elemento de circulação, mas torna-se o eixo central que conecta e organiza essa habitação integrada à topografia, potencializando a relação entre os espaços e a paisagem inclinada do morro.
O condomínio residencial é fundamentado em uma matriz densa que explora a repetição e sua reprodutibilidade como solução para a demanda habitacional em cidades cujos desenvolvimentos urbanos são restritos por obstáculos topográficos. A estrutura espacial do projeto permite micro-apropriações por seus moradores, promovendo um alto grau de individualização e a apropriação do espaço de habitação, em um contexto social cada vez mais diversificado em termos de formas de morar e arranjos familiares. Embora as fachadas externas mantenham uma aparência controlada e regular, cada unidade é única em seus fechamentos, vãos, alturas internas e número de pavimentos. A flexibilidade da malha modular adotada como estratégia permite a personalização dos espaços internos sem comprometer a economia gerada pela repetição e uso de uma infraestrutura sistemática.
Conjunto Habitacional Maria Cândida Pareto
Sergio Bernardes
Rio de Janeiro – RJ, 1978
Desenho: Lucas Marques, Jessica Duarte, Caué Capillé
Essa é uma das estratégias apresentadas no segundo ato da exposição (RE)INVENÇÃO, com curadoria de Luciana Saboia, Matheus Seco e Eder Alencar, do grupo Plano Coletivo, que ocupa o Pavilhão do Brasil durante a 19ª Mostra Internacional de Arquitetura – La Biennale di Venezia. Para conferir todas as estratégias, confira a publicação digital da mostra.