
Cipó
Essa obra vem da minha infância. Na minha família, eu escutei uma história que dizia que quando se está andando na floresta não se pode passar debaixo de um tipo de cipó. Isso me intrigava muito, porque não sabia qual era o cipó e perguntava às pessoas se elas conheciam essa história. Para minha surpresa, ouvi a mesma história em diferentes regiões do Brasil.
Escutei muitas versões sobre certas “manhas” de sair do encantamento do cipó. A mais comum é oferendar um tabaco para caipora, ou tirar a roupa e vestir do avesso, ou mesmo dormir e só sair pela manhã. Há também a técnica de quebrar os galhos pelo caminho para conseguir marcar o trajeto de volta e evitar se perder na mata.
Nessa instalação tem o cipó que nos deixa perdidos, mas também os galhos que, quando quebrados, marcam o caminho de volta. Há uma coexistência em se perder e se achar.

Muitos nomes
Ao longo dos anos encontrei “muitos nomes” para o mesmo cipó, e assim comecei a colecionar alguns. Até agora cheguei a onze nomes diferentes, como: cipó jiboia, cipó aerado, cipó de caipora, cipó de visgo, cipó da terra…
Gosto desse título porque ele não traz uma definição. Em termos de tradução isso é bonito, porque outras pessoas podem nomear algo que não existe nem na internet, algo que vem da oralidade mesmo, e a oralidade tem dessas coisas que não são muito bem explicadas.

Galhos
O galho é imprevisível, ele vai por vários caminhos. Não é a mesma coisa que trabalhar com madeira, por exemplo, pois a madeira muitas vezes está reta, lisa, processada. Já os galhos, cada um é uma escultura própria da natureza, tem um desafio de trabalhar com essas formas e criar outras formas a partir delas.
Trabalhamos com uma infinidade de tipos de galhos de diferentes árvores. Foi potente poder conhecer o Parque Ibirapuera pelas árvores que moram lá. Criamos uma outra relação com o Ibirapuera que, na origem do nome, significa pau podre.

Itinerância
É interessante pensar em ciclos. Reaproveitamos galhos de podas em São Paulo, usamos esses galhos nos mais de dez metros de diâmetro da obra, e então a desmontamos. Uma parte foi devolvida ao parque em forma de serragem, outra parte foi levada para a remontagem na mostra itinerante da 36ª Bienal em Goiânia. É interessante pensar não só nesse caminho de retorno, mas também de simultaneidade até a completa desintegração.
Por isso essa obra é também sobre o tempo, porque não fica. Muitas obras de arte são criadas para serem eternas, essa é ao contrário.