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Home Entrevistas Pois o tempo é a testemunha da humanidade: entrevista com Ruth Ige

24 abr 2026

Pois o tempo é a testemunha da humanidade: entrevista com Ruth Ige

Vista da série For Time Is the Witness of Humanity, de Ruth Ige, durante a itinerância da 36ª Bienal de São Paulo em Curitiba - © Vinícius Perbichi / Fundação Bienal de São Paulo

Pinceladas de cor índigo e de vários tons de azul estão impregnadas nas pinturas de Ruth Ige, caracterizadas pela presença enigmática de figuras sem rosto. Exibida na 36ª Bienal de São Paulo, a série Pois o tempo é a testemunha da humanidade integra a mostra itinerante da Bienal em Curitiba. Leia abaixo o depoimento da artista.

 

Ruth Ige
A Person of Great Courage, 2023
Acrílica sobre tela
152 x 122 cm
Cortesia da artista e Stevenson Gallery

Azul / Índigo

O azul, em geral, representa esse refúgio, esse lugar onde minhas figuras podem lamentar e se alegrar. Onde podem receber dignidade e respeito. Onde podem ser livres e cercadas de amor.

Vejo o azul como uma prática ancestral. É diaspórico. É uma língua materna. O azul tem axé. Tem vida e energia. Também é capaz de transmitir a vida com muita empatia. O azul contém múltiplas emoções ao mesmo tempo. Representa a vida, a água, o céu, novos começos, renovação e esperança. No entanto, também pode simbolizar tristeza, luto e a dor mais profunda. Contém todas as emoções e sentimentos complexos e multifacetados da experiência humana. Dá voz até mesmo às emoções difíceis de descrever. 

Na cultura iorubá, o índigo representa o amor. É até mesmo usado como remédio. O índigo é um antigo veículo da linguagem. Isso é visto nos tecidos índigo nigerianos, como o Adire, usado pelo povo Iorubá, e o tecido Ukara, da cultura igbo. Esses tecidos carregam símbolos de sabedoria, conhecimento, história, mitologia, proteção e espiritualidade que foram transmitidos e preservados neles.

 

Vista da série For Time Is the Witness of Humanity, de Ruth Ige, durante a itinerância da 36ª Bienal de São Paulo em Curitiba © Vinícius Perbichi / Fundação Bienal de São Paulo

 

Pois o tempo é a testemunha da humanidade

O tempo é um aspecto importante da minha prática. Em minhas pinturas, passado, presente e futuro coexistem. Com frequência utilizo as imagens, a linguagem e a mecânica da ficção especulativa para abordar temas sérios, complexos e importantes. Usei o tempo como ponto de partida para abordar o tema da Bienal. 

O título do conjunto de obras Pois o tempo é a testemunha da humanidade surge da minha concepção do tempo como um ser ou entidade personificada que testemunhou o progresso da humanidade e do mundo. O tempo se lembra e viu as partes que esquecemos. O tempo viu tudo. Ele estava lá antes de nós, está aqui conosco agora e estará lá depois de nós. É uma testemunha da nossa humanidade. 

 

Vista da série For Time Is the Witness of Humanity, de Ruth Ige, durante a 36ª Bienal de São Paulo © Natt Fejfar / Fundação Bienal de São Paulo

 

Herança

Sou iorubá por parte de pai e igbo por parte de mãe. Os materiais que uso estão profundamente enraizados na minha herança, e também na diáspora em diferentes partes do mundo. Há folhas secas nigerianas, como Uziza, Ugu e Ewuro/Onugbu, que são usadas na alimentação e na medicina tradicionais pelos povos Igbo e Iorubá. 

O pó de folha de baobá é proveniente da Nigéria. O baobá é uma das árvores mais longevas nativas da África, encontra-se em inúmeras mitologias africanas e é visto como “a árvore da vida”. Usar um material que existe há tanto tempo na Terra e que testemunhou a humanidade e suas experiências foi uma conexão muito poderosa para mim.

Estou sempre tentando encontrar diferentes tons de azul que posso adicionar à paleta de pintura. A espirulina azul é um azul natural. Adoro o fato de a espirulina crescer na água, pois a água é parte importante do meu trabalho. Descobri ainda que no Chade, na África Central, existe uma longa tradição em que a espirulina é colhida e usada pelas mulheres de um grupo étnico específico.

Também quis reconhecer e honrar a profunda conexão ancestral e espiritual entre os iorubás e o Brasil por meio de materiais como a argila brasileira.

 

Vista da série For Time Is the Witness of Humanity, de Ruth Ige, durante a itinerância da 36ª Bienal de São Paulo em Curitiba © Vinícius Perbichi / Fundação Bienal de São Paulo

 

Poesia

A poesia é parte fundamental do meu trabalho. É a linguagem e a essência da minha abordagem às pinturas. Normalmente, escrevo um poema para cada conjunto de obras, que em geral é incluído na exposição. Também é assim que dou nome às minhas pinturas. A poesia me permite desenterrar e trazer à tona emoções de forma holística. Ela dá vida a uma obra.

Compartilho a primeira estrofe do poema homônimo que escrevi para o conjunto de obras da 36ª Bienal, Pois o tempo é a testemunha da humanidade.

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*A fala da artista e seu poema foram realizados em inglês e traduzidos para o português. Para acessar o material na língua original, clique aqui.

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