A Fundação Bienal de São Paulo anuncia o projeto curatorial do Pavilhão do Brasil na 61ª Exposição Internacional de Arte – La Biennale di Venezia, realizado em parceria com o Ministério da Cultura e o Ministério das Relações Exteriores. A exposição é oferecida pela Petrobras.
Intitulada Comigo ninguém pode, a exposição tem curadoria de Diane Lima e reúne, em um diálogo inédito, as artistas Rosana Paulino (São Paulo, 1967) e Adriana Varejão (Rio de Janeiro, 1964), que ocuparão integralmente o Pavilhão do Brasil a partir de maio de 2026. A exposição adota uma abordagem instalativa que desafia a arquitetura moderna do Pavilhão do Brasil, com expografia desenvolvida por Daniela Thomas em diálogo com as artistas e a curadoria.
Tomando como ponto de partida e estado de espírito as características sincréticas e ambíguas da planta popularmente conhecida como comigo-ninguém-pode, espécie que, por conta da sua toxicidade, se transformou num símbolo de proteção e resiliência, o projeto convida o público a uma experiência sensível que propõe novas formas de perceber as relações entre natureza, história e espiritualidade. Rompendo a linearidade do tempo, a exposição coloca em diálogo obras históricas da produção de mais de três décadas das duas artistas, em que ambas se dedicam às feridas e traumas coloniais, ao mesmo tempo que destaca como esta reescrita da história também se manifesta por processos de metamorfose e pelo diálogo com a performance das materialidades no espaço.
O título também faz referência a um desenho da série Senhora das plantas, de Paulino. Além disso, Varejão, por meio da pintura, simula diferentes materialidades, como concreto, carne, talha barroca e cerâmica, culminando no elemento botânico. “O projeto faz um convite para que nos conectemos a uma frequência que abre a possibilidade de ver o transcendente no visível. Ao evocar essa energia, Comigo ninguém pode reflete sobre as manifestações da fé e da espiritualidade na cultura brasileira, destacando sua estreita relação com a natureza, com as dimensões mais-que-humanas e, sobretudo, na construção de uma complexa imaginação pública. Esses elementos constituem práticas cotidianas que nos permitem vislumbrar uma realidade que, por vezes, é mais ampla ou mais profunda do que aquela que percebemos no mundo visível. Ao reescrever a história, Comigo ninguém pode reconstrói as paredes da memória e atribui novos significados às ruínas e feridas coloniais por meio de seres fantásticos, celestiais e mágicos”, comenta Diane Lima.

faiança, terracota, algodão e linha sintética
© Rosana Paulino. Acervo Biblioteca de Artes Visuais | Pinacoteca de São Paulo.
Foto: Isabella Matheus
óleo e gesso sobre tela © Adriana Varejão. Foto: Vicente de Mello
O partido curatorial foi concebido para enfatizar os diálogos que percorrem as trajetórias prolíficas de ambas as artistas. A exposição reúne pinturas, esculturas e desenhos, bem como novas obras de grande escala desenvolvidas especialmente a partir desse encontro. As obras foram escolhidas por meio de sobreposições, tensionamentos e aproximações simbólicas, cromáticas, matéricas e iconográficas que constituem este repertório histórico e cultural nacional. “Desde o momento em que surgiu a ideia de convidar Rosana e Adriana, que o meu maior desafio foi apresentá-las como uma composição, uma única voz, repleta de harmonias e dissonâncias, de modo que este gesto e as nossas próprias presenças tivessem, como num jazz, uma dimen-são muito mais performativa e sensorial do que didática sobre a nossa história. Acredito que o Brasil verá a si mesmo como um reflexo e uma sombra no espelho, um autorretrato pintado com conversas sobre a carne, a natureza e a fé”, completa Diane Lima.
“Em trabalhos como Aracnes e Ninfa tecendo o casulo, retomo a imagem da mulher negra como tecelã de vida e memória, aquela que extrai do próprio corpo a matéria para sustentar a continuidade. São obras que afirmam a força da reconstrução, da sutura e da permanência diante da violência histórica”, comenta Paulino.
“Estou trabalhando intensamente em muitas obras novas para o Pavilhão que foram pensadas em diálogo direto com a arquitetura do edifício. As pinturas se distribuem de maneira imprevisível no espaço, assumindo um caráter instalativo e fazendo do prédio parte ativa do trabalho”, afirma Varejão.
“A curadoria de Diane Lima e o encontro entre Adriana Varejão e Rosana Paulino consolidam um célebre projeto para a presença brasileira em Veneza. É uma proposta que fundamenta nosso compromisso institucional com uma participação consistente, contemporânea e conectada ao debate global”, afirma Andrea Pinheiro, presidente da Fundação Bienal de São Paulo.
Recuperação do Pavilhão do Brasil
O Pavilhão do Brasil, projetado por Giancarlo Palanti, Henrique Mindlin e Walmyr Lima Amaral em 1964, foi recuperado pela Fundação Bienal de São Paulo em parceria com o Ministério da Cultura e o Ministério das Relações Exteriores. O processo foi realizado em três fases: a primeira concentrou-se em reparos estruturais essenciais; a segunda recuperou elementos-chave do projeto arquitetônico original, mais notadamente as paredes laterais de vidro e a fachada do Pavilhão; e a fase final foi concluída no início de 2026.
Sobre Diane Lima
Diane Lima (Mundo Novo-BA, Brasil, 1986) é curadora, pesquisadora e uma das principais vozes do feminismo negro na arte da América Latina. Foi parte do coletivo curatorial de coreografias do impossível, a 35ª Bienal de São Paulo (2023), e assina a curadoria de exposições como Paulo Nazareth: Luzia, no Museo Tamayo (Cidade do México, 2024) e O rio é uma serpente, a 3ª Trienal de Artes Frestas (2020/2021). Também organizou o programa Diálogos Ausentes no Itaú Cultural (2016–2017), que desempenhou um papel histórico na virada anticolonial da arte contemporânea brasileira. Entre os reconhecimentos recentes estão sua nomeação como vice-presidente do Conselho Consultivo Científico da documenta e do Museum Fridericianum gGmbH (2025, Alemanha) e a premiação pela Ford Foundation Global Fellowship (2021). Diane é autora e editora da antologia Negros na Piscina: Arte Contemporânea, Curadoria e Educação (2024), que documenta os últimos dez anos de debates sobre racialidade e arte no Brasil.
Sobre Adriana Varejão
Adriana Varejão (Rio de Janeiro, Brasil, 1964) desenvolve, desde os anos 1980, uma obra marcada por reflexões críticas sobre o colonialismo e a formação plural da cultura brasileira. Realizou exposições panorâmicas em instituições como Centro de Arte Moderna Gulbenkian, em Lisboa; Pinacoteca de São Paulo; Haus der Kunst (Munique); Museo Tamayo (Cidade do México); ICA (Boston); Malba (Buenos Aires); Hara Museum (Tóquio); e Fondation Cartier (Paris). Também participou das bienais de São Paulo, Sydney, Havana, Liverpool e Istambul. Ao longo de sua trajetória, recebeu importantes reconhecimentos como a Ordem do Mérito Cultural, do Ministério da Cultura do Brasil, e a condecoração Chevalier des Arts et des Lettres, do governo francês. Suas obras integram coleções de museus como Tate Modern (Londres), Metropolitan Museum of Art e Guggenheim (Nova York), Dallas Museum of Art, Stedelijk Museum (Amsterdã), Fundação Serralves (Porto), Museo Reina Sofía (Madri) e MASP (São Paulo). No Instituto Inhotim, em Brumadinho-MG, possui um pavilhão permanente dedicado à sua obra.
Sobre Rosana Paulino
Rosana Paulino (São Paulo, Brasil, 1967) vive e trabalha em São Paulo. Doutora em artes visuais e bacharel em gravura pela Escola de Comunicações e Artes da USP, é também especialista em gravura pelo London Print Studio. Reconhecida como uma das artistas mais relevantes de sua geração, recebeu prêmios de grande prestígio, como o Konex Mercosur: Artes Visuais (Argentina, 2022), MUNCH Award (Noruega, 2024), Jane Lombard Prize (Estados Unidos, 2025) e Black Mountain College (Estados Unidos, 2025). Sua obra integra os acervos de importantes instituições, entre elas: MAM SP, Pinacoteca de São Paulo, MASP, Malba (Buenos Aires), Pérez Art Museum (Miami) e The Studio Museum in Harlem (Nova York), MoMA, Nova York, University of New Mexico Art Museum (Albuquerque), Harvard Art Museums (Cambridge), Tate Modern (Londres) e Centre Pompidou (Paris).
Sobre a Fundação Bienal de São Paulo
Fundada em 1962, a Fundação Bienal de São Paulo é uma instituição privada sem fins lucrativos e vinculações político-partidárias ou religiosas, cujas ações visam democratizar o acesso à cultura e estimular o interesse pela criação artística. A Fundação realiza a cada dois anos a Bienal de São Paulo, a maior exposição do hemisfério Sul, e suas mostras itinerantes por diversas cidades do Brasil e do exterior. A instituição é também guardiã de dois patrimônios artísticos e culturais da América Latina: um arquivo histórico de arte moderna e contemporânea referência na América Latina (Arquivo Histórico Wanda Svevo), e o Pavilhão Ciccillo Matarazzo, sede da Fundação, projetado por Oscar Niemeyer e tombado pelo Patrimônio Histórico. Também é responsabilidade da Fundação Bienal de São Paulo a tarefa de idealizar e produzir as representações brasileiras nas Bienais de Veneza de arte e arquitetura, prerrogativa que lhe foi conferida há décadas pelo Governo Federal em reconhecimento à excelência de suas contribuições à cultura do Brasil.
Pavilhão do Brasil na 61ª Exposição Internacional de Arte – La Biennale di Venezia
exposição: Comigo ninguém pode
comissária: Andrea Pinheiro, presidente da Fundação Bienal de São Paulo
curadoria: Diane Lima
participantes: Adriana Varejão e Rosana Paulino
local: Pavilhão do Brasil
endereço: Giardini Napoleonici di Castello, Padiglione Brasile, 30122, Veneza, Itália
visitação: 9 mai – 22 nov 2026
fechado às segundas-feiras (exceto nos dias 11 de maio, 1º de junho, 7 de julho e 16 de novembro)