
A cor não se preocupa com o tempo
Acho que foi o manuseio de uma pequena amostra de hematita que me fez pensar em retroceder no tempo. Esse tempo que, sob meus pés, pulou décadas, séculos e milênios. Existente e inexistente, o tempo sempre foi uma das minhas angústias mais ferozes. Falo de tempo humano ou histórico, porque do geológico, nem consigo pensar.
Decidida a conhecer (aprender) um pouco a história de cada cor, passei a visitar sítios arqueológicos. Não com o conhecimento de uma cientista, o que não sou, mas reivindicando a licença artística de quem manuseia o mesmo material usado nessas inscrições parietais.
A arte dos nossos ancestrais permanece em locais guardados, como em grutas fechadas nas entranhas da terra, naturalmente protegidas das novas populações. Ou ainda em áreas abertas, como no caso da Pedra Pintada de Umari, no município paraibano de Bananeiras, onde nasci. Não temos a data exata das pinturas de Umari. No entanto, sabemos que o vermelho sangue dos desenhos geométricos e das mãos impressas na pedra que encima o conjunto granítico está há milênios desafiando as forças da natureza e a compreensão humana. Resistente como o vermelho da hematita ou fugidia como o azul-anil, a cor não se preocupa com o tempo. Afinal, este é parte da angústia humana.

Vocábulo terra
A princípio, eu buscava matéria, cor e textura nos campos para preparar pigmentos e tintas – e cobrir, com pinceladas ainda medrosas, pequenas telas, papéis e cartões. A contínua imersão nas paisagens naturais, o desenvolvimento de áreas de pesquisa e os campos de saber nos quais me aventurei me causaram fascínio e amedrontamento. Porém, o desafio do salto no abismo sempre me atraiu muito mais. No livro que escrevi, As Cores da Terra, falo desta terra ampla com a qual convivo:
“Na língua portuguesa, o vocábulo terra tanto pode designar o planeta do sistema solar em que habitamos, a parte do solo agricultável (base para nossa sobrevivência), uma região qualquer, ‘uma terra…’, um terreno, a pátria, quanto o local de nascimento, ‘a minha terra…’, a poeira, o pó, argila, barro, o mundo. Se esta amplidão de sentidos influiu na minha escolha, há também a intimidade resultante do uso, por um longo tempo, de tintas que historicamente foram batizadas com os nomes dos locais de origem de seus pigmentos anexados à palavra terra, como a terra de Siena, terra de Úmbria, terra de Nápoles, terra de Verona, ou com algumas cores específicas como terra roxa ou terra verde. Além desses condicionantes, há ainda nessa escolha os reflexos da minha ideologia e engajamento político e ambiental”.
O corpo terroso, tão seguramente matérico, fácil de analisar, peneirar, lavar, nomear e colecionar, de maneira quase subliminar passou a ser também arte e poética. Amalgamada, a terra pode ser então, mesmo pura, num vidrinho, arte, história, geografia, geologia, poética, e, por que não, política.

Na verdade, não escolhi trabalhar com a terra. Quase não senti quando ela foi ocupando cada vez mais espaço no meu ateliê e na minha obra. No início, mantinha todas as amostras separadas da sala de produção artística. Pouco a pouco, elas ocuparam o ateliê e se misturaram com testes, telas, pinturas, mostruários, peneiras e esculturas. O trabalho de campo também foi crescendo e fui entendendo que um pouco de terra ou um recorte da paisagem podia ser uma obra de arte. Arte viva.
Além das palavras ligadas à minha metodologia de trabalho, muitas outras foram sendo tão repetidas que também ingressaram no meu acervo verbal. Entre elas: formação, barreira, colúvio, corte, penhasco, falésia. Nomes de feições geográficas, mas principalmente de caminhos palmilhados. Nas falésias, coletei as cores mais lindas, toquei as terras mais macias e senti cheiro de vida – afinal, segundo os geólogos, são vivas. Encostas sujeitas a um contínuo processo de mudanças, ganhos, perdas e transformações. Assim como todos nós.

Museu das terras brasileiras
Não consigo estimar a quantidade de amostras do meu acervo. Mesmo porque, de algum tempo para cá, guardo parte em outros espaços. Mas posso falar em milhares de amostras de terras de todas as regiões do país, etiquetadas e guardadas, no estado natural ou já processadas como pigmento.
De algumas localidades, guardo montes de pequenos torrões, por vezes acomodados em pequenos vasilhames. De outras, pedaços de argila compactada expostos como escultura. Algumas estantes suportam longas filas de vidros maiores, completamente preenchidos com argila fina de cores variadas.
Além das argilas, guardo no ateliê uma coleção de minerais que conta a história das cores, a coleção de resinas e colas naturais e uma coleção de óleos vegetais, que servem de aglutinantes para o preparo das tintas de terra. Entre as estantes de terras apertam-se amostras, testes, pequenas pinturas e mostruários de cores e mapas.
Há muito tempo, olhando para a quantidade de materiais e o modo de apresentar, entendi que, além de artista e pesquisadora, eu me transformei em colecionadora. E o acervo montado mais parecia um museu. Rapidamente peguei uma faixa de tecido e escrevi com tinta de terra vermelha: Museu das terras brasileiras.

Terra viva
Embora no meu ateliê tudo esteja harmoniosamente imbricado, e há muito tempo eu tenha entendido que materiais e obras são partes de uma só unidade, sempre apresentei obras prontas em exposições.
Em 2022, para um projeto da curadora Tereza de Arruda, pude preparar o outro lado do meu trabalho: os materiais e segredos das práticas alquímicas instalados em uma longa mesa com aspecto de laboratório. A partir daí, o desejo de compor uma obra-síntese entranhou-se na minha cabeça. Ter a poesia da terra e a terra da poesia. Dois anos depois, em mostra da mesma curadora, arrisquei um primeiro ensaio deste projeto. A minha obra Terra-devir, uma escultura com faixas de tecido pintadas com pigmentos oriundos das terras brasileiras, já estava acompanhada de um pequeno mostruário.
Em 2025, o honroso convite do curador Bonaventure Soh Bejeng Ndikung e demais cocuradores da 36ª Bienal de São Paulo surgiu como a possibilidade de, enfim, realizar esse desejo. A junção de Terra viva com um recorte mais representativo de Museu das terras brasileiras caracteriza uma obra talvez mais complexa, mas que entendo como mais abrangente. Quase um teste ou prova de um novo modelo de arte em que dois lados se fundem – arte e técnica se mostram iguais.

Itinerância
Amo todas as terras, mas as do Nordeste muito mais. Além disso, é a terra onde Sérvulo Esmeraldo, nascido no Crato, implantou grandes obras e desenvolveu projetos especiais. Na década de 1990, participei de uma exposição curada por ele, na qual as minhas esculturas, feitas de material frágil, foram instaladas numa praça de Fortaleza. Ajudei a montá-las e depois me afastei olhando aquilo que, em pouco tempo, seria transformado pela chuva e pelo sol.
Não senti tristeza. Ao contrário, compreendi que a obra havia cumprido seu destino. Aprendi com Sérvulo que a efemeridade também é uma forma de permanência. Desde então nunca mais olhei para a terra apenas como matéria. Ela passou a me ensinar, todos os dias, que transformar-se também é uma maneira de permanecer.