• Acessibilidade
      Fonte
    • A+
    • Aa


  • Agenda
  • Busca
  • pt
    • en
  • Bienal
  • fundação
  • bienal a bienal
  • Agenda
  • +bienal
  • biblioteca
  • Arquivo Histórico
  • 70 anos
  • apoie
  • café bienal
  • transparência
  • relatório de gestão 2022-2023
  • Imprensa
  • contato
  • identidade visual
  • trabalhe conosco
Home Terra viva: entrevista com Marlene Almeida

23 jul 2026

Terra viva: entrevista com Marlene Almeida

Vista de Terra viva, de Marlene Almeida, durante a 36ª Bienal de São Paulo - © Natt Fejfar / Fundação Bienal de São Paulo

Amostras de terra coletadas em diferentes regiões brasileiras são processadas como pigmentos ou mantidas brutas em uma espécie de laboratório. Uma escultura composta por longas faixas de tecido tingidas com pigmentos naturais remete a uma rocha ou um aglomerado de trilhas a serem percorridas. A técnica e a poética são aliadas em Terra viva, de Marlene Almeida, instalação criada especialmente para a 36ª Bienal de São Paulo. A obra agora integra a mostra itinerante da Bienal em Fortaleza. Leia abaixo o depoimento da artista.

Uma amostra de tecido com uma grade de 36 quadrados, cada um tingido em um tom diferente de marrom, bege ou laranja, está pendurada acima de uma prateleira branca. Na prateleira, há potes e frascos de vidro contendo sementes, pós e matéria orgânica, ao lado de recipientes de cerâmica e pedaços de madeira e pedra.
Detalhe de Museu das terras brasileiras, de Marlene Almeida, durante a 36ª Bienal de São Paulo © Natt Fejfar / Fundação Bienal de São Paulo

 

A cor não se preocupa com o tempo

Acho que foi o manuseio de uma pequena amostra de hematita que me fez pensar em retroceder no tempo. Esse tempo que, sob meus pés, pulou décadas, séculos e milênios. Existente e inexistente, o tempo sempre foi uma das minhas angústias mais ferozes. Falo de tempo humano ou histórico, porque do geológico, nem consigo pensar.

Decidida a conhecer (aprender) um pouco a história de cada cor, passei a visitar sítios arqueológicos. Não com o conhecimento de uma cientista, o que não sou, mas reivindicando a licença artística de quem manuseia o mesmo material usado nessas inscrições parietais. 

A arte dos nossos ancestrais permanece em locais guardados, como em grutas fechadas nas entranhas da terra, naturalmente protegidas das novas populações. Ou ainda em áreas abertas, como no caso da Pedra Pintada de Umari, no município paraibano de Bananeiras, onde nasci. Não temos a data exata das pinturas de Umari. No entanto, sabemos que o vermelho sangue dos desenhos geométricos e das mãos impressas na pedra que encima o conjunto granítico está há milênios desafiando as forças da natureza e a compreensão humana. Resistente como o vermelho da hematita ou fugidia como o azul-anil, a cor não se preocupa com o tempo. Afinal, este é parte da angústia humana.

 

Uma grande escultura cônica, feita de longas tiras verticais de material em tons terrosos, está suspensa no teto, iluminada por dentro. As tiras, em tons de preto, marrom, vermelho, laranja, amarelo e creme, se espalham na base, cercadas por placas redondas escuras que sustentam pedras marrom-avermelhadas.
Vista de Terra viva, de Marlene Almeida, durante a 36ª Bienal de São Paulo © Natt Fejfar / Fundação Bienal de São Paulo

 

Vocábulo terra

A princípio, eu buscava matéria, cor e textura nos campos para preparar pigmentos e tintas – e cobrir, com pinceladas ainda medrosas, pequenas telas, papéis e cartões. A contínua imersão nas paisagens naturais, o desenvolvimento de áreas de pesquisa e os campos de saber nos quais me aventurei me causaram fascínio e amedrontamento. Porém, o desafio do salto no abismo sempre me atraiu muito mais. No livro que escrevi, As Cores da Terra, falo desta terra ampla com a qual convivo:

“Na língua portuguesa, o vocábulo terra tanto pode designar o planeta do sistema solar em que habitamos, a parte do solo agricultável (base para nossa sobrevivência), uma região qualquer, ‘uma terra…’, um terreno, a pátria, quanto o local de nascimento, ‘a minha terra…’, a poeira, o pó, argila, barro, o mundo. Se esta amplidão de sentidos influiu na minha escolha, há também a intimidade resultante do uso, por um longo tempo, de tintas que historicamente foram batizadas com os nomes dos locais de origem de seus pigmentos anexados à palavra terra, como a terra de Siena, terra de Úmbria, terra de Nápoles, terra de Verona, ou com algumas cores específicas como terra roxa ou terra verde. Além desses condicionantes, há ainda nessa escolha os reflexos da minha ideologia e engajamento político e ambiental”.

O corpo terroso, tão seguramente matérico, fácil de analisar, peneirar, lavar, nomear e colecionar, de maneira quase subliminar passou a ser também arte e poética. Amalgamada, a terra pode ser então, mesmo pura, num vidrinho, arte, história, geografia, geologia, poética, e, por que não, política. 

 

Rochas ásperas e marrom-escuras repousam em pequenas depressões circulares escuras em primeiro plano. Atrás delas, grandes pedaços de material marrom-avermelhado, laranja e amarelo, com formatos irregulares, pendem verticalmente.
Detalhe de Terra viva, de Marlene Almeida, durante a 36ª Bienal de São Paulo © Natt Fejfar / Fundação Bienal de São Paulo

 

Na verdade, não escolhi trabalhar com a terra. Quase não senti quando ela foi ocupando cada vez mais espaço no meu ateliê e na minha obra. No início, mantinha todas as amostras separadas da sala de produção artística. Pouco a pouco, elas ocuparam o ateliê e se misturaram com testes, telas, pinturas, mostruários, peneiras e esculturas. O trabalho de campo também foi crescendo e fui entendendo que um pouco de terra ou um recorte da paisagem podia ser uma obra de arte. Arte viva.

Além das palavras ligadas à minha metodologia de trabalho, muitas outras foram sendo tão repetidas que também ingressaram no meu acervo verbal. Entre elas: formação, barreira, colúvio, corte, penhasco, falésia. Nomes de feições geográficas, mas principalmente de caminhos palmilhados. Nas falésias, coletei as cores mais lindas, toquei as terras mais macias e senti cheiro de vida – afinal, segundo os geólogos, são vivas. Encostas sujeitas a um contínuo processo de mudanças, ganhos, perdas e transformações. Assim como todos nós.

 

Uma grande sala de exposições apresenta estantes brancas de vários níveis, dispostas em forma de L e em linha reta. As prateleiras exibem inúmeros objetos pequenos, muitos contidos em potes e cilindros de vidro. A sala tem piso escuro, grandes janelas à direita e uma parede curva revestida de tecido verde-escuro à esquerda.
Vista de Museu das terras brasileiras, de Marlene Almeida, durante a 36ª Bienal de São Paulo © Natt Fejfar / Fundação Bienal de São Paulo

 

Museu das terras brasileiras

Não consigo estimar a quantidade de amostras do meu acervo. Mesmo porque, de algum tempo para cá, guardo parte em outros espaços. Mas posso falar em milhares de amostras de terras de todas as regiões do país, etiquetadas e guardadas, no estado natural ou já processadas como pigmento. 

De algumas localidades, guardo montes de pequenos torrões, por vezes acomodados em pequenos vasilhames. De outras, pedaços de argila compactada expostos como escultura. Algumas estantes suportam longas filas de vidros maiores, completamente preenchidos com argila fina de cores variadas. 

Além das argilas, guardo no ateliê uma coleção de minerais que conta a história das cores, a coleção de resinas e colas naturais e uma coleção de óleos vegetais, que servem de aglutinantes para o preparo das tintas de terra. Entre as estantes de terras apertam-se amostras, testes, pequenas pinturas e mostruários de cores e mapas. 

Há muito tempo, olhando para a quantidade de materiais e o modo de apresentar, entendi que, além de artista e pesquisadora, eu me transformei em colecionadora. E o acervo montado mais parecia um museu. Rapidamente peguei uma faixa de tecido e escrevi com tinta de terra vermelha: Museu das terras brasileiras.

 

Uma grande instalação artística apresenta inúmeras faixas longas e texturizadas em tons terrosos de marrom, vermelho, laranja e amarelo, que descem em cascata do teto e se espalham pelo chão escuro. Pedras ásperas e objetos circulares em forma de prato, contendo elementos rochosos menores, estão dispostos nas extremidades das faixas.
Vista de Terra viva, de Marlene Almeida, durante a 36ª Bienal de São Paulo © Natt Fejfar / Fundação Bienal de São Paulo

 

Terra viva

Embora no meu ateliê tudo esteja harmoniosamente imbricado, e há muito tempo eu tenha entendido que materiais e obras são partes de uma só unidade, sempre apresentei obras prontas em exposições. 

Em 2022, para um projeto da curadora Tereza de Arruda, pude preparar o outro lado do meu trabalho: os materiais e segredos das práticas alquímicas instalados em uma longa mesa com aspecto de laboratório. A partir daí, o desejo de compor uma obra-síntese entranhou-se na minha cabeça. Ter a poesia da terra e a terra da poesia. Dois anos depois, em mostra da mesma curadora, arrisquei um primeiro ensaio deste projeto. A minha obra Terra-devir, uma escultura com faixas de tecido pintadas com pigmentos oriundos das terras brasileiras, já estava acompanhada de um pequeno mostruário. 

Em 2025, o honroso convite do curador Bonaventure Soh Bejeng Ndikung e demais cocuradores da 36ª Bienal de São Paulo surgiu como a possibilidade de, enfim, realizar esse desejo. A junção de Terra viva com um recorte mais representativo de Museu das terras brasileiras caracteriza uma obra talvez mais complexa, mas que entendo como mais abrangente. Quase um teste ou prova de um novo modelo de arte em que dois lados se fundem – arte e técnica se mostram iguais.

 

Uma prateleira branca exibe uma coleção de materiais para tingimento natural. Potes de vidro contêm matéria vegetal de cor clara, enquanto frascos contêm substâncias granulares laranja e amarelas. Ao fundo, uma amostra de tecido exibe uma grade de 40 quadrados com diversas cores de tingimento natural.
Detalhe de Museu das terras brasileiras, de Marlene Almeida, durante a itinerância da 36ª Bienal de São Paulo na Pinacoteca do Ceará, em Fortaleza © Marília Camelo / Pinacoteca do Ceará

 

Itinerância

Amo todas as terras, mas as do Nordeste muito mais. Além disso, é a terra onde Sérvulo Esmeraldo, nascido no Crato, implantou grandes obras e desenvolveu projetos especiais. Na década de 1990, participei de uma exposição curada por ele, na qual as minhas esculturas, feitas de material frágil, foram instaladas numa praça de Fortaleza. Ajudei a montá-las e depois me afastei olhando aquilo que, em pouco tempo, seria transformado pela chuva e pelo sol.

Não senti tristeza. Ao contrário, compreendi que a obra havia cumprido seu destino. Aprendi com Sérvulo que a efemeridade também é uma forma de permanência. Desde então nunca mais olhei para a terra apenas como matéria. Ela passou a me ensinar, todos os dias, que transformar-se também é uma maneira de permanecer.

Leia também


Acessar +bienal
Foto de pessoas andando por um espaço expositivo com fotos e pinturas.
Vista da itinerância da 36ª Bienal de São Paulo no Museu de Arte Contemporânea de Goiás, em Goiânia© Paulo Rezende / Fundação Bienal de São Paulo
Notícias7 jul 2026

Programa de mostras itinerantes da 36ª Bienal avança pelo Brasil e chega ao exterior

Com cinco itinerâncias da 36ª Bienal de São Paulo – Nem todo viandante anda estradas – Da humanidade como prática em curso no país, a Fundação Bienal de São Paulo anuncia as próximas etapas do programa, que seguirá por mais seis cidades brasileiras e por três do exterior nos próximos meses, alcançando quinze territórios em 2026.

Saber mais
Uma pessoa com cabelo curto e encaracolado, vestindo uma camisa branca, um colete estampado e calças largas escuras, está em meio a uma instalação de arte. A instalação apresenta inúmeras hastes de metal escuras e retorcidas, semelhantes a raízes ou galhos, que cobrem o chão e se elevam ao redor da pessoa. Cortinas altas, de cor laranja claro, estão ao fundo.
A artista Rebeca Carapiá em frente à sua obra durante o coquetel de abertura da 36ª Bienal de São Paulo© Levi Fanan / Fundação Bienal de São Paulo
Entrevistas11 jun 2026

Como criar raízes aéreas: entrevista com Rebeca Carapiá

As palmeiras-andantes conhecidas como paxiúbas (Socratea exorrhiza) foram as companheiras de Rebeca Carapiá nos dias que passou ao longo do rio Tupana, na bacia Amazônica. Em aço, carbono e cobre, a artista passou meses fundindo uma floresta de esculturas em torno de uma experiência sobre linguagem, transformação, andança, corpo, vida e morte. Suas obras agora integram a mostra itinerante da 36ª Bienal em Santos. Leia o depoimento completo da artista.

Saber mais
Foto da equipe curatorial da 37ª Bienal, que é composta de nove pessoas, todas de pé, uma ao lado da outra, diante do vão central do Pavilhão da Bienal, um prédio branco, com rampas curvadas, uma coluna central e outras laterais. As pessoas são de diversas cores, etnias e idades, e estão todas usando roupas com tons escuros, e sorriem.
Da esquerda para a direita: Rado Ištok, Mayara Carvalho, Amanda Carneiro, Ryan Inouye, Yina Jiménez Suriel, Ana Salazar Herrera, Amanda Tavares, Raphael Fonseca e Léuli Eshrāghi, a equipe curatorial da 37ª Bienal de São Paulo© Camila Tuon / Fundação Bienal de São Paulo
Notícias2 jun 2026

Fundação Bienal de São Paulo anuncia a equipe curatorial da 37ª Bienal de São Paulo

A equipe curatorial formada pelos curadores-chefes Amanda Carneiro e Raphael Fonseca é composta por nove profissionais de todo o globo.

Saber mais

Newsletter

Receba a Newsletter da Bienal

Bienal

  • Fundação
  • Bienal a Bienal
  • Agenda
  • +bienal
  • Biblioteca
  • 70 anos
  • Arquivo Histórico
  • Apoie
  • Trabalhe conosco
  • Café Bienal
  • Transparência
  • Relatório de Gestão 2022-2023

  • Contato
  • Identidade Visual

Fundação Bienal de São Paulo

Av. Pedro Álvares Cabral, s/n - Moema CEP 04094-050 / São Paulo - SP

Contato

+55 11 5576.7600 contato@bienal.org.br

Privacidade
•
Termos de uso
Copyright © 2026 Bienal de São Paulo
Ao clicar em "Concordar", você concorda com uso de cookies para melhorar e personalizar sua experiência, bem como nossa Política de Privacidade. Ver a Política de Privacidade*.
Concordar