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Home Notícias DIREITO à cidade, parte II

18 nov 2014

DIREITO à cidade, parte II

A segunda parte do simpósio discute ativismo, políticas de controle, criminalização dos pobres, militarização e o papel da arte engajada em contextos urbanos.

 

 

A segunda parte do simpósio coorganizado por Raquel Rolnik e Zeyno Pekunlu visa discutir duas questões conectadas em dois locais. No primeiro dia, analisa as atuais políticas de controle das massas em relação à criminalização dos pobres e a militarização da polícia em cidades brasileiras e turcas. No segundo dia, observa o papel da arte engajada em contextos urbanos, sua relação com o ativismo e quem são os beneficiários de tais práticas. Reúne artistas, ativistas e acadêmicos da Turquia e do Brasil.

22 de novembro, sábado
Controle de massas, criminalização dos pobres e militarização da polícia
Mediação: Raquel Rolnik e Zeyno Pekunlu
12h – 12h45: Produção de espaços, formas de controle e conflitos, Vera Telles
A gramática bélica e gestão militarizada dos espaços urbanos é questão que se coloca hoje no cenário das cidades globalizadas, colocando no centro das discussões os sentidos e efeitos da lógica securitária que rege a gestão da cidade e dos seus espaços, as populações, seus modos e seus movimentos. Se as evidências são várias, ainda resta entender os nexos que articulam o governo da segurança, o governo dos espaços urbanos e as estratégias de mercantilização da cidade. Em outras palavras, os nexos entre estratégias de poder, violência e a produção dos mercados. Tomando como referência acontecimentos recentes na cidade de Sao Paulo (e outras), a hipótese que se pretende explorar nessa exposição é que as formas de controle hoje inscritas na produção dos espaços urbanos parecem configurar campos de tensão e de gravitação de uma conflitualidade urbana, que nos entregam pistas para compreender a face politica das configurações urbanas recentes.

13h – 14h30: Almoço

14h30 – 15h15: Violência policial e as “classes perigosas”: As possibilidades políticas na idade da segurança e da anti-política, Deniz Yonucu
Com base principalmente nos casos de violência policial e criminalidade em bairros da classe operária de Istambul e dando exemplos dos EUA, França e Brasil, nesta palestra discutirei como a criminalização da juventude urbana pobre (racializada) e a associação do perigo com a pobreza se traduzem em violência na vida cotidiana das populações urbanas pobres. Na linha do filósofo francês Rancière, apresentarei uma definição mais ampla da polícia que vai além do aparelho de segurança do Estado. Argumentarei que as formações de segurança do Estado moderno, que colocam a polícia no centro da ordem social, buscam ativamente despolitizar lutas políticas potenciais ou reais. Consequentemente, esta palestra, valendo-se dos casos de violência da polícia, convidará a plateia a refletir sobre a relação entre a polícia e a política e questionar as formas possíveis de política sob o regime polícia/segurança em que vivemos.

15h45 – 16h30: As margens do desenvolvimento brasileiro: violência e controle militar da pobreza urbana, Gabriel Feltran
O Brasil passa atualmente por uma transformação importante em grande parte devido ao desenvolvimento econômico experimentado durante a última década. Por um lado, as taxas de desemprego alcançaram o nível mais baixo da história e os indicadores sociais estão gradualmente melhorando. Por outro lado, este cenário paradoxal reflete níveis renovados de conflito urbano, enormes protestos e violência. Este cenário paradoxal pode ser medido especificamente nos territórios e grupos sociais considerados “marginalizados”. Trabalhadores manuais ou pobres evangélicos conseguem com muita facilidade adquirir seus iPhones; ao mesmo tempo, todos eles têm uma probabilidade muito maior de serem presos. A apresentação refletirá sobre os modos diferenciais (controle militar, encarceramento, gestão social, monetarização) pelos quais territórios e populações marginais estão sendo controlados no Brasil contemporâneo e como isto pode ser traduzido em termos de “desenvolvimento”.

17h – 18h30: Painel de discussão e apresentações, Almires Martins, Clara Ianni, Débora Maria da Silva, Éder Oliveira

19h: Projeção do filme Z32, seguida de conversa com o diretor Avi Mograbi
Z32 é construído em torno de uma confissão – o relato de um jovem sobre sua participação no assassinato por vingança de dois oficiais da polícia palestina pelo exército israelense nos territórios ocupados. Em torno do relato do soldado, Mograbi entrelaça a discussão, extensa e muitas vezes áspera, do relacionamento de um casal, pontuada pelo próprio Mograbi dirigindo-se para a câmera, como faz tipicamente. Camadas adicionais de complexidade são acrescentadas pelo uso de uma “máscara” digital, tanto para disfarçar a identidade do jovem soldado como para enfatizar a política da câmera como testemunha, e pela decisão radical de Mograbi de interpretar seus próprios elementos de reflexão, como canções brechtianas com música de Kurt Weill. Os elementos radicais do projeto de Mograbi se combinam para levantar questões dolorosas e incômodas sobre responsabilidade, perdão e a forma da verdade cinematográfica.

23 de novembro, domingo
O papel da arte engajada (ativista)
Mediação: Galit Eilat
12h – 12h45: Ativismo dividual no capitalismo maquínico, Gerald Raunig
A noção de individuo estabelecida há séculos começa a vacilar. Começa a época do dividual. A má noticia: o dividual revela-se sobretudo como uma agravação da exploração e da cooptação no capitalismo das máquinas: em algoritmos, derivadas, grandes volumes de dados e mídias sociais a dividualidade funciona como ampliação desenfreada da divisão do poder e da divisão do individuo. A boa noticia: justamente no terreno do dividual manifesta-se uma nova qualidade de resistência, compreendida como uma diversidade crítica, uma revolução molecular e uma co-divisão.

13h – 14h30: Almoço + Lançamento do livro O Espaço como Obra: Ações, Coletivos Artísticos e Cidade, de Joana Zatz Mussi. Uma co-edição: Annablume e Invisíveis Produções, com apoio da Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo)

14h30 – 15h: Temporalidades urbanas e ações artísticas: mútuas tensões no presente, Vera Pallamin
A condição urbana contemporânea assenta-se, atualmente, em dinâmicas associadas à mundialização do mercado e do capital, envolvendo distintos ritmos de fragmentação espacial e segregação social, em prol do predomínio da produção de excedente e de valor. Estamos em meio a uma ordem preponderante do tempo pautada, por um lado, por um presente prolongado, que despotencializa o futuro e, por outro, pelo elogio do imediato, propalado pelas tecnologias digitais, pelo controle e pelo consumo. Interessa-nos pensar, sob esta tensão, como ações artísticas em espaços urbanos buscam escapar dessas categorias temporais dominantes.

15h – 15h30: “Pode ser visto até a demolição”: Ruínas urbanas, street art e gentrificação em Istanbul, Begüm Özden Firat
Focalizando quatro eventos sucessivos de arte de rua que ocorreram na área de revitalização urbana empreendida pelo Estado em Tarlabaşı, esta apresentação discutirá os modos pelos quais as práticas de arte de rua podem tornar-se cúmplices dos processos de gentrificação urbana.

15h30 – 18h: Mesa Redonda – O papel da arte engajada (ativista) e seus beneficiários, Ali Taptik, Comboio e Moinho Vivo, Grupo Contrafilé, Meir Tati, Serkan Taycan

Retirada: Combinando arte e ativismo numa perspectiva conciliatória, Ali Taptik
Taptik tem se engajado em vários grupos de oposição antes e depois da Resistência de Gezi, optando por afastar-se de práticas artísticas em seu trabalho como ativista. A palestra será uma exposição sobre o envolvimento pessoal de Taptik com diferentes grupos como Iniciativa para a Preservação do Jardim Botânico Histórico de Yedikule. O que significa ser um artista conciliador? Nossa mobilidade vertical e horizontal pode fazer do artista um negociador eficaz ou estamos apenas nos enganando?

Engajamento com o mundo, Grupo Contrafilé
O Grupo Contrafilé apresentará alguns de seus trabalhos tendo em vista refletir sobre o “engajamento na arte” como uma série de operações materiais e imateriais que permitam um “engajamento com o mundo”. Não pretende, portanto, falar a respeito de algo “exterior” a si mesmo, mas de formas e dispositivos através dos quais pôde experienciar esse tipo de “travessia”.

Como trabalhar em um país que não te quer ali?, Meir Tati
Durante o último verão em Israel o mesmo ciclo de guerra se repetiu. Desta vez a diferença foi um forte sentimento geral de ódio em relação a quem quer que não sustentasse o ponto de vista da direita. Ou seja, a favor da guerra. Este ódio e perseguição inundaram a rede social, a mídia e as ruas. Nas manifestações, a polícia estava tentando nos manter a salvo dos manifestantes de direita mas ao mesmo tempo não queria fazer isso. Foi a primeira vez que não entendi por que vivo em um país que não me quer ali. Em minha apresentação falarei sobre minhas atividades como artista e Diretor do Departamento de Comunidade e Educação nos MoBY – Museus de Bat-Yam, no ambiente político em Israel.

Caminhando pelo futuro: Entre dois mares, Serkan Taykan
“Entre dois mares” é uma rota de quatro dias de caminhada no setor oeste de Istambul, entre o Mar Negro e o Mar de Mármara, que possibilita que se vivencie a pé a ameaçadora transformação de Istambul. A distância total da trilha é de 60 quilômetros. A rota, composta de quatro segmentos de 15 quilômetros também pode ser coberta durante quatro dias distintos. Camada por camada, a rota avança da periferia mais externa da cidade até seu centro. Passa por áreas rurais e de matas, e bacias hidrográficas até alcançar o centro da cidade. A trajetória passa por minas de linhita, a área demarcada para o novo aeroporto, a estrada que leva à 3a Ponte do Bósforo, áreas de depósitos de sítios de escavação, instalações industriais e zonas residenciais, além de locais de significado cultural e histórico como a Caverna de Yarimburgaz, que é o mais antigo assentamento em Istambul e o jardim botânico do centro pobre da cidade. “Entre dois mares” é uma proposta e ao mesmo tempo um convite. É uma ação que celebra o ritmo do caminhar que abre a alma para perceber o mundo. E esta ação é talvez o “projeto” mais auspicioso que abrirá uma “passagem” entre o Mar Negro e o Mar de Mármara.

| imagem: Não é sobre sapatos. 2014. Video, Gabriel Mascaro

 

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